A divisão das artes em apolíneas & dionisíacas feita por Nietzsche parece bastante razoável & resolve boa parte dos problemas de classificação artística. Mas elevar esse conceito para as escolas artísticas desde os tempos da Antigüidade me soa como um exagero. Classificar o Barroco & o Romantismo como partes de toda uma tradição dionisíaca só por conta da presença da subjetividade, & valorização do sacro pode ser uma generalização injusta tanto com os conceitos das duas escolas como com a classificação nietzscheniana.
Nietzsche: "(...)no mundo helênico existe uma enorme contraposição, quanto a origens e objetivos, entre a arte do figurador plástico, a apolínea, e a arte não figurada da música, a de Dionísio: ambos os impulsos, tão diversos, caminham lado a lado,(...)"*. O filósofo estuda a obra de arte helênica em si, e não tendências artísticas. Juntar o Barroco & o Romantismo apenas para fins classificatórios - ainda que com ressalvas - pode ser aceitável. Mas para fins analíticos é impensável, isso porque entre as duas veias há o fenômeno da industrialização, cuja influência - como já visto anteriormente - foi mister para o desenvolvimento do Romantismo. Muitos conceitos românticos e barrocos não se cruzam, ainda que versem sobre o mesmo assunto. Peguemos, para rápida comprovação, poemas de Gregório de Matos e Álvares de Azevedo, dois expoentes claros das duas escolas tidas como dionisíacas:
"Discreta, e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia:
Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:
Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.
Oh, não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sobra, em nada." (Gregório de Matos)
"Meu anjo tem o encanto, a maravilha,
Da espontânea canção dos passarinhos...
Tem os seios tão alvos, tão macios
Como o pêlo sedoso dos arminhos.
Triste de noite na janela a vejo
E de seus lábios o gemido escuto.
É leve a criatura vaporosa
Como a frouxa fumaça de um charuto.
Parece até que sobre a fronte angélica
Um anjo lhe depôs coroa e nimbo...
Formosa a vejo assim entre meus sonhos
Mais bela no vapor do meu cachimbo.
Como o vinho espanhol, um beijo dela
Entorna ao sangue a luz do paraíso...
Dá morte num desdém, num beijo vida
E celestes desmaios num sorriso!
Mas quis a minha sina que seu peito
Não batesse por mim nem um minuto...
E que ela fosse leviana e bela
Como a leve fumaça de um charuto!" (Álvares de Azevedo)
Primeiro, numa análise formal, Gregório de Matos usa um soneto, forma evitada pelos românticos. & Álvares de Azevedo estruturaliza seu poema em 4 estrofes de 4 versos decassílabos cada uma. A preocupação formal é mais clara no primeiro poema. A finesa da composição paralelística ("Em tuas faces", "Em teus olhos") & gradativa (do último verso) são perfeitos exemplos do cuidado formal barroco. Já em Álvares de Azevedo essa preocupação formal é desprovida de importância.
Os dois poemas falam da beleza feminina, & a idealização é visível em ambos. Mas no poema barroco ela é vinculada ao Carpe Diem, num tom pessimista, enquanto no poema romântico é vinculada ao spleen. O spleen romântico, inovação lançada por Byron, é responsável pelo conceito de tom 'inspiratório' do poema, que se extende até os dias de hoje. Os poemas românticos tendem a parecer que foram escritos de sopetão, sem grandes elocubrações, o que não é verdade. A inspiração não é responsável pela criação dos poemas, massim o trabalho de composição.
O projeto romântico - impulsionado pela Revolução Industrial - critica o detalhismo & a erudição clássicos & impõe um ritmo & uma popularização vocabular que faz parecer que o poema não tem projeto de criação. Já no Barroco é basicamente a preocupação com a seleção de palavras, o trabalho cultista &/ou conceptista que rege a base estrutural do poema.
Além disso, outro conceito que se transformou com a Revolução Industrial - & que atrapalha a classificação do Barroco & do Romantismo num mesmo apanhado - é o conceito da alma, que vamos abordar mais pra frente, mas que também é apresentado nos dois poemas acima de forma diversa, na figura da mulher.
Para rápida e superficial análise, dividir os movimentos artísticos em apolíneos & dionisíacos tem a sua importância, tendo em vista algumas características que se repetem nas duas tendências. O problema é que, ainda que essas formas de expressões se repitam, a forma como elas são expressadas são diferentes, & esse fato é evidentemente crucial para qualquer interpretação mais aprofundada.
*[NIETZSCHE Friedrich, O nascimento da tragédia, ed. Companhia de Bolso]
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
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Um comentário:
*burp*
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